Os produtos multifuncionais são aqueles que atuam simultaneamente como
fertilizantes e protetores de planta. Eles podem ser constituídos de um
nutriente como fosfito (fosfato reduzido), fósforo e cobre, ou mesmo
ativadores de crescimento à base de composto orgânico, como aminoácidos e
protetores das plantas como substâncias antimicrobianas.
Renato
de Mello Prado, engenheiro agrônomo e pesquisador da UNESP/Jaboticabal,
esclarece que os produtos multifuncionais têm ação como fonte de
nutriente para atender a exigência nutricional das plantas e também
promotores de crescimento para induzi-las a produzir hormônios e
substâncias antimicrobianas para reduzir a incidência de doenças e
pragas na lavoura.
Atuação
Como exposto, os produtos
multifuncionais atuam em diferentes partes da planta, seja para nutrir,
controlar patógenos, ou até mesmo fungos de solo e plantas daninhas.
Isso pode variar de cultura para cultura, mas vai depender do
conhecimento técnico dos profissionais.

"Quando
falamos em nutrição das plantas, temos que tomar cuidado para não
desperdiçar nossos recursos. Assim, podemos fazer algumas perguntas,
como: podemos afirmar que essas plantas estão com deficiência? É
necessária a aplicação deste produto? Precisamos de uma avaliação
altamente técnica para tomar a decisão, por exemplo, uma análise foliar,
que em geral não temos costume de realizar, e que pode impactar nossa
recomendação. Quanto a doenças, pragas e plantas daninhas são visíveis e
comprometem a produção, por isso a decisão se torna mais fácil de
aplicar ou não", explica José Annes Marinho, engenheiro agrônomo, MBA em
Marketing.
Diagnose do estado nutricional das plantas
A
diagnose é fundamental para que o produto seja recomendado, bem como
para dar retorno ao produtor. "Eis um dos grandes problemas que temos
para adotar a tecnologia - nem sempre o produtor está disposto a
realizar este teste, pois há custos, e em geral pragas e doenças
acontecem juntas. Neste caso, o tempo e custo são fatores de incerteza
em adotar o produto", argumenta José Annes.
Vantagens e desvantagens dos produtos multifuncionais
Para
José Annes, os produtos multifuncionais possuem um espectro maior de
atuação, mas precisam quebrar paradigmas e mostrar definitivamente seus
benefícios em produção, além das dificuldades na agilidade de um
resultado rápido da diagnose nutricional das plantas. Tal barreira
deverá ser superada, para que os produtos alcancem o mercado e possam
ser mais utilizados.
Renato Prado aponta como vantagens dos
produtos multifuncionais a ação múltipla visando suprir os nutrientes e
proteger as plantas. "A severidade da maioria das doenças pode ser
reduzida com o uso dos produtos multifuncionais de 20 a 50%, embora seja
muito dependente do genótipo cultivado e das condições edafoclimáticas
da região", considera.
Ainda segundo ele, na agricultura, por
ser 'indústria a céu aberto', tem-se alta possibilidade de ocorrência de
estresses de natureza biótica ou abiótica e, portanto, medidas
preventivas de uso dos produtos multifuncionais podem beneficiar as
culturas.
Espera-se um alto índice de utilização pelas plantas
dos nutrientes aplicados nas folhas; correção de algumas deficiências de
micronutrientes em curto espaço de tempo; possibilidade da aplicação
dos produtos multifuncionais, juntamente com outros defensivos
agrícolas.
Entre as desvantagens, ele destaca a viabilidade
desses produtos apenas para culturas de alto investimento, restringindo
as demais culturas. "O uso destes produtos tem risco de perda devido à
ocorrência de eventual chuva após a aplicação. A menor efetividade de
uso desses produtos em lavouras muito jovens normalmente apresenta área
foliar restrita, e o número restrito de trabalhos científicos
desenvolvidos com esses produtos limita os conhecimentos sobre o tema",
enumera o pesquisador.
Deficiências nutricionais na fase reprodutiva
Segundo
estudos de grandes pesquisadores dos centros de excelência no Brasil, a
adubação foliar pode evitar que aconteçam problemas na germinação do
pólen, florescimento e frutificação. Por exemplo, a falta de boro no
cafeeiro causa abortamento das gemas floríferas, influindo também no
crescimento vegetativo.
No caso da soja, José Annes explica que a
utilização de adubos foliares à base de cálcio e boro tem papel
importante, pois o cálcio afeta a fertilização de flores e formação de
vagens de soja, existindo uma correlação negativa entre o teor de cálcio
na planta e o número de flores e vagens abortadas.
Relação direta com as doenças
Em
geral, os produtos multifuncionais têm uma redução significativa na
severidade das doenças. "Não podemos comparar o controle/eficiência
destes produtos aos produtos químicos, pois estarão em desvantagem, mas
podem ser ferramentas importantes para o manejo das culturas", considera
o agrônomo José Annes.
Critérios
Para não errar, é
importante identificar e certificar se o produto é eficiente para o que
se pretende no campo e para cultura, se a diagnose foi feita para
determinar o produto adequado, se a época de aplicação está adequada, e
se realmente é necessária a aplicação.
Renato Prado complementa, sugerindo os seguintes critérios:
.
a aplicação foliar de nutrientes não pode ser utilizada como regra de
substituição da adubação via solo, e sim como complemento;
. a
aplicação foliar para macronutrientes não introduz o incremento
suficiente no tecido foliar, pois as plantas apresentam alta exigência
e, consequentemente, não apresentam reflexos significativos na produção;
portanto, para esses nutrientes, não seria vantajoso o uso dessa
técnica;
. a aplicação foliar para micronutrientes tem como ponto
positivo a baixa exigência das plantas e, portanto, exige pequena
quantidade aplicada; o ponto negativo seria a baixa mobilidade na
planta, ou seja, o produto permanecerá nas folhas que receberam a
aplicação. Assim, com o surgimento de novas folhas o eventual sintoma de
deficiência deverá se repetir. Por isso, a frequência de aplicação dos
micronutrientes poderá melhorar a sua eficiência.
. a água
utilizada deve ser limpa, pois a presença de impurezas, como argila, por
exemplo, pode causar reações com nutrientes, reduzindo sua ação;
. o valor pH da solução deve ser controlado;
.
usar tecnologia de aplicação apropriada, como equipamentos bem
regulados (bicos específicos, pressão, altura da barra) para que garanta
maior homogeneidade e com reduzida deriva;
. O uso de espalhante
adesivo mostra-se importante para aumentar a superfície de contato do
nutriente na folha e, consequentemente, o incremento da absorção.
Todas
as recomendações acima devem ser acompanhadas por um técnico que
conheça nutrição de plantas, um fator fundamental na atividade.
"Seguindo essas orientações, é bem provável que o produtor tenha retorno
do investimento", pontua José Annes, citando o café, soja, milho,
algodão, tomate e citros como exemplos bem sucedidos de uso desses
produtos.
Nutrição adequada
Em geral, quando há equilíbrio
nutricional as plantas tornam-se menos suscetíveis ao ataque de pragas e
doenças. "Isso não quer dizer a eliminação de ferramentas disponíveis,
como defensivos agrícolas ou produtos biológicos. Quando unimos essas
ferramentas chamamos a atividade de manejo integrado, que utiliza todas
as técnicas para obter o melhor resultado e o menor impacto para o
ambiente. Está aqui o segredo de uma agricultura sustentável", revela o
agrônomo José Annes.
Para ele, os produtos multifuncionais são
uma tendência, assim como a união dos compostos, para facilitar as
práticas agrícolas. "Ainda precisamos de mais pesquisas e recomendações
adequadas para cada cultura, pois temos distintas situações em nosso
País. Por isso é fundamental o acompanhamento técnico para que os
investimentos possam ter o retorno esperado e a técnica possa vir a se
consolidar", opina.
Viabilidade econômica
Na opinião de
Renato Prado, a adubação foliar com produtos multifuncionais é
importante em culturas de alto investimento, pois mesmo com pequenos
incrementos na produção (cerca de 5%), o retorno econômico seria
garantido, dado o alto valor do produto agrícola.
De acordo com o
pesquisador, a importância do uso dos nutrientes adequados para a
cultura ocorre pelo fato deles participarem da estrutura orgânica das
plantas e por exercerem uma atividade enzimática, garantindo o ótimo
metabolismo vegetal, propiciando, por exemplo, maior atividade
fisiológica da planta, como a fotossíntese, com reflexos diretos no
crescimento e na produtividade das culturas.
A nutrição adequada
irá garantir maior tolerância das plantas a doenças e pragas, com
reflexos benéficos na maior eficiência do controle químico e biológico
utilizados na lavoura.
"A nutrição adequada aumenta a tolerância
das plantas pelo fato de propiciar maior 'barreira física' da
superfície das folhas à penetração de agentes patogênicos e também pela
'barreira química'. Isso porque os nutrientes estimulam a produção de
compostos orgânicos que inibem o crescimento dos agentes patogênicos",
esclarece Renato Prado.
Por fim, as plantas em estado
nutricional adequado têm menor quantidade de alimento disponível para os
agentes patogênicos, pois em seus tecidos há baixa quantidade de
compostos de baixo peso molecular (aminoácidos) de fácil acesso ao
patógeno, em relação à alta quantidade de compostos de peso molecular
superior (proteínas).